
Esta história me foi contada nos anos 70, quando eu estudava para fazer o vestibular unificado. Eu era aluno de um tradicional colégio particular do Recife e, na semana que antecedia os exames finais, ficamos sem aulas de Física. A explicação era uma licença médica do professor, sujeito severo e carrancudo que sentia um enorme prazer em dar notas baixas. Já os meus colegas de classe tinham outra versão para a convalescença do mestre.
Segundo eles, tudo começou numa tarde se sábado, quando o professor lia concentrado o jornal do dia. Ele resmungava em voz baixa, xingando o periódico que insistia em publicar matérias absurdas sobre uma certa Perna Cabeluda. "Como, em pleno século XX, alguém pode dar crédito uma imbecilidade dessa", repetia o professor. Os pensamentos dele foram interrompidos por um pedido veemente da esposa: a empregada da família estava com um parente doente em casa e precisava que alguém a levasse até lá. A moça estava na flor dos seus dezoito anos, era uma bela garota e o professor não se incomodou nem um pouco em perder o restinho do sábado para fazer aquele favor.
A casa da menina ficava no Alto de Santa Isabel, no bairro de Casa Amarela: um lugar cheio de vielas e becos. Caminhos que o professor não saberia percorrer sozinho, sem a ajuda da empregada. Quando finalmente chegaram à casinha humilde da moça, ele ficou imaginando como iria sair daquele labirinto. A mocinha agradeceu muito pela carona - finalmente poderia cuidar da mãe adoentada - e explicou como ele devia fazer o caminho de volta. O professor não entendeu nada, mas não quis dar o braço a torcer. Tinha a certeza que acharia o rumo certo.
Mas ele acabou se perdendo. As explicações que os outros moradores do lugar lhe deram acabaram provocando ainda mais confusão. A noite chegou e o professor se viu de repente num beco sem saída, mal iluminado e deserto. Para piorar a situação, o carro - uma Variant novinha, imaginem - morreu inesperadamente. O desorientado motorista identificou logo uma falha na parte elétrica do automóvel. Àquela hora e naquele lugar, nem todos os conhecimentos de Física - fórmulas, equações, teoremas - do professor adiantariam para fazer reviver a máquina defeituosa. Desanimado, percebeu que precisava sair dali a pé em busca de socorro.
Caminhou alguns minutos pelas ruelas estreitas e mal iluminadas. Então percebeu que estava sendo seguido. Conseguia ouvir os passos, mas não via quem estava atrás dele. E isso foi lhe dando muito medo. Um suor frio escorria da sua testa. O coração batia descompassado, como se quisesse pular para fora do peito. Quando o medo se transformou em pavor, o professor saiu correndo como um desesperado. O seu perseguidor também correu para acompanha-lo. Passando por baixo de um poste com luz amarelada, ele pôde ver o que o perseguia. Anos de crença nas verdades da ciência, de apego ao materialismo racionalista, desmoronaram quando o professor distinguiu a figura insólita da Perna Cabeluda. Abobalhado com a descoberta, o mestre foi alvo fácil do chute que a assombração desferiu bem no traseiro dele.
O professor foi encontrado por populares pouco tempo depois sentado no meio-fio com cara de leso. Encaminharam-no à delegacia mais próxima e os policiais conseguiram leva-lo para casa. Por recomendação de um psiquiatra, tirou uma licença de alguns dias do trabalho. Mas, quando voltou à sala de aula, apresentou por vários meses um comportamento estranho, dispersivo.
Bom, quando à Variant, também foi encontrada. Sem as calotas, sem os pneus, sem a caixa de direção, sem o carburador....
Segundo eles, tudo começou numa tarde se sábado, quando o professor lia concentrado o jornal do dia. Ele resmungava em voz baixa, xingando o periódico que insistia em publicar matérias absurdas sobre uma certa Perna Cabeluda. "Como, em pleno século XX, alguém pode dar crédito uma imbecilidade dessa", repetia o professor. Os pensamentos dele foram interrompidos por um pedido veemente da esposa: a empregada da família estava com um parente doente em casa e precisava que alguém a levasse até lá. A moça estava na flor dos seus dezoito anos, era uma bela garota e o professor não se incomodou nem um pouco em perder o restinho do sábado para fazer aquele favor.
A casa da menina ficava no Alto de Santa Isabel, no bairro de Casa Amarela: um lugar cheio de vielas e becos. Caminhos que o professor não saberia percorrer sozinho, sem a ajuda da empregada. Quando finalmente chegaram à casinha humilde da moça, ele ficou imaginando como iria sair daquele labirinto. A mocinha agradeceu muito pela carona - finalmente poderia cuidar da mãe adoentada - e explicou como ele devia fazer o caminho de volta. O professor não entendeu nada, mas não quis dar o braço a torcer. Tinha a certeza que acharia o rumo certo.
Mas ele acabou se perdendo. As explicações que os outros moradores do lugar lhe deram acabaram provocando ainda mais confusão. A noite chegou e o professor se viu de repente num beco sem saída, mal iluminado e deserto. Para piorar a situação, o carro - uma Variant novinha, imaginem - morreu inesperadamente. O desorientado motorista identificou logo uma falha na parte elétrica do automóvel. Àquela hora e naquele lugar, nem todos os conhecimentos de Física - fórmulas, equações, teoremas - do professor adiantariam para fazer reviver a máquina defeituosa. Desanimado, percebeu que precisava sair dali a pé em busca de socorro.
Caminhou alguns minutos pelas ruelas estreitas e mal iluminadas. Então percebeu que estava sendo seguido. Conseguia ouvir os passos, mas não via quem estava atrás dele. E isso foi lhe dando muito medo. Um suor frio escorria da sua testa. O coração batia descompassado, como se quisesse pular para fora do peito. Quando o medo se transformou em pavor, o professor saiu correndo como um desesperado. O seu perseguidor também correu para acompanha-lo. Passando por baixo de um poste com luz amarelada, ele pôde ver o que o perseguia. Anos de crença nas verdades da ciência, de apego ao materialismo racionalista, desmoronaram quando o professor distinguiu a figura insólita da Perna Cabeluda. Abobalhado com a descoberta, o mestre foi alvo fácil do chute que a assombração desferiu bem no traseiro dele.
O professor foi encontrado por populares pouco tempo depois sentado no meio-fio com cara de leso. Encaminharam-no à delegacia mais próxima e os policiais conseguiram leva-lo para casa. Por recomendação de um psiquiatra, tirou uma licença de alguns dias do trabalho. Mas, quando voltou à sala de aula, apresentou por vários meses um comportamento estranho, dispersivo.
Bom, quando à Variant, também foi encontrada. Sem as calotas, sem os pneus, sem a caixa de direção, sem o carburador....
Texto retirado do recife assombrado!! Ainda bem que ele não era professor de História!







